SÍNTESE DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO:

Talebi, MG (1999): Preferência Manual e lateralidade durante a coleta de alimento em muriquis (Brachyteles arachnoides): um estudo naturalístico.

Universidade de São Paulo
Instituto de Psicologia
Departamento de Psicologia Experimental
Sub-Área: Comportamento Aniimal
Orientador: Prof. Dr. César Ades

Têm se multiplicado, nas últimas décadas, as pesquisas sobre lateralidade em animais, visando detectar formas assimétricas de organização cerebral, análogas ou homólogas às encontradas em seres humanos (Fagot & Vauclair, 1991). A assimetria marcada do cérebro humano, que se expressa em especializações hemisféricas e em controles motores diferenciais constitui um fenômeno intrigante que têm levado a uma intensificação do esforço comparativo.

A diferença na frequência de uso de cada mão pode manifestar-se em nível individual, havendo preferência consistente pela direita ou pela esquerda, sem que, estatisticamente, predominem destros ou canhotos. Pode também manifestar-se em nível populacional, como ocorre no caso do ser humano, em que há uma maioria de indivíduos destros. A lateralidade está relacionada com o tipo de tarefa e as exigências que esta coloca: de presteza, de equilíbrio, de finexa motora. Segundo Fagot e Vauclair (1991) o uso lateralizado das mãos surgiria mais em tarefas complexas do que em tarefas simples. Além da dificuldade ou complexidade diferenciais da manipulação exigida, entram em jogo fatores ontogenéticos vários (Rogers, 1995).

Torna-se necessário, em qualquer estudo, levar em conta a faixa etária, o sexo e a história de aprendizado dos indivíduos em questão. A especialização do uso das mãos não deve ser (comodamente) tomada como uma questão de controle exclusivamente genético: há que se suspeitar da existência de plasticidade e optar, sempre que possível, por esquemas de observação ou experimentação que a ponha a prova.

Os primatas têm atraído boa parte do esforço de pesquisa sobre lateralidade. Não é difícil imaginar que isto tenha a ver com sua proximidade filogenética ao ser humano. É relativamente grande o volume de trabalhos com prossímios, através do empenho de Jeannette Ward. Destacam-se ainda pesquisas com gorilas, orangotangos e chimpanzés e outros primatas do Velho Mundo (Hopkins, 1995; Colell, Segarra e Sabater-Pi, 1995; Hopkins, Bennett, Bales, Lee e Ward, 1993; Boesch, 1991; Sanford, Guin e Ward, 1984; Ward, Milliken, Dodson, Stafford e Wallace, 1990).

Os primatas do Novo Mundo têm sido pouco utilizados como objeto de pesquisa, apesar da riqueza em espécies do continente. Podem ser citados estudos com macacos-prego (Cebus apella) (Fragaszy e Mitchell, 1990), Micos de cheiro (Saimiri sp), Saguis de Tufo Branco (Saguinus oedipus) (Roney e King, 1993), e Saguis do Nordeste (Callithrix) (Rogers, 1995). Há ainda muito por se fazer e o primeiro motivo para a pesquisa que estamos apresentando foi contribuir para sanar esta lacuna, trazendo observações sobre a lateralidade e a manipulação de um macaco brasileiro, o muriqui ou mono carvoeiro, Brachyteles arachnoides. O segundo motivo foi tentar compreender a manipulação e as preferências manuais do animal em seu ambiente natural.

Muitas das pesquisas sobre lateralidade em primatas têm por contexto situações de cativeiros e equipamentos mais ou menos sofisticados, que, decerto, permitem cercar melhor a atuação de determinadas variáveis. Deixam contudo de lado um aspecto muito relevante, para quem se interessa por adaptação e evolução do comportamento: a lateralidade posta à prova no ambiente natural.

O muriqui B. arachnoides pertence à família Cebidae, gênero monotípico da subfamília Atelinae, à qual pertencem os gêneros Ateles sp., e Lagothrix sp. Tem um peso corporal médio de 15 kg (macho adulto) e 12 kg (fêmea adulta), pelagem espessa, cauda longa preênsil, com terço final desnudo, servindo de superfície táctil e preensora. Seu principal modo de locomoção é através da braquiação, realizada através dos membros e mãos alongadas. O polegar é vestigial ou ausente, e a mão é utilizada como gancho, em desempenhos de manipulação. É endêmico de Floresta Tropical Atlântica e matas semi-decíduas adjacentes.

Sua distribuição original situava-se entre os paralelos 13 e 25, abrangendo áreas desde o Sul da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e leste do Paraná. Esta distribuição está hoje muito fragmentada devido à pertubação antrópica. Brachyteles arachnoides é listado como espécie ameaçada de extinção, nos arquivos da IUCN .

O muriqui utiliza em sua dieta uma grande diversidade de itens alimentares: frutos, folhas, flores, lianas e epífitas, de acordo com sua disponibilidade sazonal. É um animal que se marca por mesclar características próprias de frugívoros e de folívoros. A locomoção suspensória, que faz parte de uma estratégia de busca de alimentos dispersos (frutos) é um caracter associado à frugivoria (Strier, 1986). Durante a alimentação, o muriqui demonstra seletividade e um alto grau de manipulação do alimento.

As atividades e posturas de forrageio estão ajustadas ao contexto em que este ocorre, em galhos, no alto das árvores, e à natureza do item alimentar. B. arachnoides utiliza de um a três apoios , concomitantemente com o uso das mãos para coleta e condução do alimento até a boca. Pode também abocanhar diretamente o alimento e ingerí-lo, mantendo-se então apoiado em até cinco pontos. As diferentes características físicas dos alimentos, forma, textura, rugosidade e densidade , bem como o grau de maturidade, são fatores que determinam distintos graus de complexidade manipulatória e podem afetar o uso diferencial da mão esquerda e da mão direita no muriqui.

Nada ou quase, se sabe sobre o modo como o muriqui lida, direta e manipulativamente, com seu alimento variado; nada se sabe acerca de suas preferências manuais. O conhecimento destes aspectos teria, além de uma importância descritiva, uma relevância para teorias sobre a evolução da lateralidade, como a de MacNeilage, Studdert-Kennedy e Lindblom (1987). Contexto do estudo Durante prazo de trinta e dois meses (Junho/ 1993 até Janeiro/1996) foi acompanhado um grupo selvagem de muriquis habituados à presença humana no Parque Estadual de Carlos Botelho - São Miguel Arcanjo - SP.

Complementarmente, está sendo realizada a investigação de elementos provenientes dos aspectos manipulativos do alimento e de lateralização em preferência manual em indivíduos sob condições de cativeiro, caracterizado como grupo controle da investigação científica em desenvolvimento. Em cativeiro as condições de observação possuem maior qualidade descritiva a curto prazo, bem como é possível o acesso do histórico de vida de cada animal; tais observações estão sendo realizadas trimestralmente no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro - CPRJ, Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA - RJ)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Segarra, M. S.; Sabater-Pi, J. (1995). Manual Laterality in Chimpanzees (Pan troglodytes) in Complex Tasks. Journal of Comparative Psychology, 109, 298-307.

Fagot, J. & Vauclair, J. (1991). Manual Laterality in Nonhumam Primates: a distinction between Handedness and Manual Specialization. Psycological Bulletin, 109: 76-89.

Fleagle, J.G. (1988). Primate Adaptation & Evolution. Academic Press, New York Fonseca, G.A.B.da (Org.) (1994). Livro Vermelho dos Mamíferos Ameaçados de extinção. Fundação Biodiversitas, Belo Horizonte. 459 p.

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Sanford, C.; Guin, K. Ward, J..(1984):Posture and laterality in the bushbaby ( Galago senegalensis).Brain Behavior and evolution.25:217-224

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Ward. J.P.; Milliken, G. W.;Dodson, D.L.;Stafford,D.K. & Wallace, M. (1990): Handedness as a function of sex and age in a large population of Lemur. Journal of Comparative Psychology, (104)2,167-173.